segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Entrevista com Fernanda Alpino e Fernando Carvalho

1 - Por que vocês decidiram montar uma tragédia grega atualmente? 

Na verdade, faltam motivos que nos desmotivem a montar uma tragédia. A gente parte de uma situação política atual e compreendemos que o teatro é político. Vivemos uma tragédia anunciada. Uma tragédia é aquilo que não tem escapatória. Nós víamos uma coisa que ia acontecer, uma jogada política ensaiada e trágica. Aconteceu, e estamos aí vivendo, só assistindo. Não é tomando nenhum posicionamento de A ou B, mas nós vivemos uma tragédia no país. Então difícil é não montar uma tragédia nesse momento. Os Sete contra Tebas surge de forma impactante para nós, pois casa com o contexto não só politico, ou seja, em relação aos políticos, mas em relação ao contexto social atual; as interações e as relações binárias, polarizadas e maniqueístas; os ódios e os amores vividos de formas muito radicais. Parte portanto da vontade de abrir um pouco mais essas dicotomias gerais.

2 - Vocês já assistiram alguma montagem de espetáculo baseado nesse texto? Se sim, isso os inspirou de alguma forma? 

Não. Temos o material de estudo que a gente já carrega sobre as encenações da época. Mas nós não vamos montar a peça, tampouco adaptar, e sim nos apropriarmos dos mitos da obra, que enfim nos geram pretextos para criação de cenas. A partir daí, não se põe muitos limites. Partimos dessas referências históricas, investigações arqueológicas com todo respeito ao autor e ao que ele representa, este que da tragédia grega foi o que tinha a dramaturgia um pouco mais musical, um pouco mais poética que outros como Eurípides e Sófocles que foram ficando mais dramáticos. De forma alguma desmerecemos, negamos ou nos colocamos como rebeldes "cagando para a obra". Temos uma pesquisa em cima do período e do próprio autor e o que ele representa para nós, mas privamos muito pela contemporaneidade, para que o teatro se relacione com os alunos na fórmula e a partir dela nós transformarmos os texto. Não queremos encena-lo simplesmente, considerando que a obra e a sua poética propõem uma gama de imagens não tornando as cenas tão fechadas. Pensamos em trazer o texto para o mesmo lugar que nós. Ele não é mais importante na montagem do que a direção, a atuação, a luz, a música, a dramaturgia, o próprio contexto que vivemos agora, e nem tampouco essas são maiores do que o texto.


3 - De que forma então, a obra Os Sete contra Tebas servirá de estímulo, pretexto, inspiração para a criação do espetáculo? 


Pretendemos utilizar a estrutura narrativa, nos apropriarmos um pouco dela e também dos mitos, que estão relacionados às sete batalhas, às sete portas e aos embates entre as figuras da obra, realizando analogias com o contexto atual social e politico.


4 - Há uma estética ou linha de interpretação pré determinada, ou vocês pretendem localizar um conceito junto com a turma?


Por sermos um grupo de teatro, nós mediamos essa oficina com o que a gente pode e com o que queremos. Isso reflete na estética que a gente trabalha com os alunos, ou seja, a oficina reflete a nossa estética. E é como uma via de mão dupla, a gente aprende mais sobre o que é que a gente faz e eles aprendem também um pouco do que podemos passar. Temos sete anos de grupo e acho que essa nossa estética nós fomos construindo. Talvez se ligue a estética relacional, relacionada com o olhar do outro, com a presença, com público. O público sempre está como corpo presente também, não só como observador voier. 
Já relacionado a linha de interpretação, nós desde o início desse trabalho, já estamos direcionando o curso para um flerte com o performativo, no sentido em que eles (alunos) se coloquem enquanto identidades políticas e criadoras. Essa busca pelas identidades parte pela escolha do texto até que eles identifiquem esses papeis sociais e políticos, e isso já flerta com o performativo, porque eles vão ter que se colocar quanto pessoas. Mas não é no lugar daqueles depoimentos pessoais deprimidos ou engraçados, mas sim em que o interprete se colocará, com uma visão política e histórica, o que ele representa como corpo e cidadão. A dramaturgia e a estética estão totalmente relacionadas com os alunos. 













5 - É interessante trazer pontos que salientam a fórmula do teatro do Liquidificador? Há uma fórmula?

Fórmula mesmo, não. Cada processo é um novo processo. É claro que a gente traz a nossa carga, o nosso histórico, nossas referências. Temos uma bagagem que é boa, que é gradual e que vem sendo desenvolvida. Mas também conversamos com a estética da peça. Por exemplo, no semestre passado trabalhamos com o texto que falava de um mágico, que era deprimido e virava um funcionário público. A partir disso, começamos a trabalhar com muitos exercícios de circo, de virtuose, de mãos, truque de mágica, olhares e espetacularidades; aquilo que achamos que seja apropriado para usar. Talvez essa seja a coisa liquidificadora de ser. E agora com Os Sete contra Tébas, temos que relacionar com tudo que passamos e a partir disso, o que usamos daquelas coisas? O que pode nos ajudar? O que podemos pegar dos outros processos? 
Dessa forma, nós partimos de um motivo, que no caso é o texto e o que a gente vê nele de potencial, dos contextos, e a partir disso a gente usa o que a gente já tem, o que a gente inventar e o que a gente ler. 
Por isso é como uma homenagem, não é uma destruição, mas sim uma desconstrução para reconstrução de um Ésquilo. Não estamos negando o texto, mas sim usando as potencialidades dele. Não usamos um texto que a gente não gosta, que não nos interessa e não nos provoque. Vamos pelo afeto, pela identificação com alguma coisa, mas não necessariamente com exatamente tudo, mas com alguma coisa que abriu nossos olhos, que nos interessou. 
Talvez seja refletir uma contemporaneidade que esteja velada, que não vemos muito em foco. Refletir isso no teatro que sempre refletiu a vida inteira. Dialogar com essa contemporaneidade de forma potente, de forma que afete os corpos que vão estar aqui e que vão estar performando. 

6 – Vocês pretendem usar elementos da encenação? (Iluminação, cenário, figurino)
Sempre. Aquilo que a gente falou: esses elementos da encenação compõem a dramaturgia também. Então partindo de um contexto que é um exercício de formação, ou seja, que não é uma montagem profissional ou comercial, não temos intenções de criar uma megaestrutura, mas nós envolvemos os alunos nesse processo da encenação, o que eles podem trazer, busca de materiais, e com isso, selecionamos o que vai enxertar a dramaturgia e a história. Propomos assim para que os alunos lidem cada vez mais com essa materialidade e com o que nós conseguimos agregar a partir disso nas construções.


7 - Como foi a primeira oficina e o que os motivou a fazer a segunda?

Nós não nos vemos necessariamente refletidos e contemplados artística e ideologicamente nas oficinas e nas opções de cursos de teatro que a cidade oferece. Visto isso, pensamos que de repente seria uma oportunidade de acrescentar. Foi um pouco uma preocupação com quem está entrando agora nesse mercado, com as experiências que influenciam muito nessa primeira formação, os tipos de estética que são trabalhadas. Mas eu (Fernando) não tenho uma formação em licenciatura, então dar aula não é uma coisa que eu quero para a minha vida, pelo menos não em um espaço formal. Mas claro que eu gosto muito de dar aula, a gente estuda isso, tem o cuidado de ir com calma e de fazer uma coisa bem estruturada.
Não acreditamos muito nesse tipo de relação que é "yang" de muitos métodos de ensino, que têm uma voz de comando absoluta. Gostamos dessa troca, de dar e receber algo em troca, algo mais relacional. Isso acaba sendo um grande aprendizado para nós. E os outros processos já participamos estão com a gente ainda, influenciam muito agora também. Tem essa carga que é da prática teatral, da relação da interpretação e da direção.

8 - Que tipo de abordagem cada um de vocês propõem? Há alguma divisão? 
Eu (Fernanda) geralmente oriento aquecimento e alongamento, o Fernando orienta os exercícios e a gente dirige junto a montagem. Mas dessa vez nós até estamos subvertendo mais essa divisão; vamos sentindo o fluxo. 

9 - Por que a escolha de um lugar não convencional e quando vocês vão começar a trabalhar fora da sala de aula?
Ainda é uma ideia, porque nós ainda não sabemos como eles vão responder, então vamos experimentando. Mas parte de como podemos criar novas relações com o expectador. De propor um formato que de alguma maneira pegue o público mais desarmado. É uma forma diferenciada de recepção, porque essa experiência frontal está muito codificada, os teatros são em maioria assim, então você sabe como se comportar. Quando a orientação muda, aí surgem novas formas de se relacionar que não é a de doutrinamento. Forma também é conteúdo, então a gente quer horizontalizar, trazer o público e os atores para o mesmo plano.
A relação com o espaço vai ser gradual, assim como todo o nosso processo tá sendo. Aula passada os alunos já começaram a conhecer o espaço, manusearam lanternas. Então aos poucos nós vamos estabelecendo esse contato.

10 - Por que vocês escolheram oferecer essa oficina para pessoas iniciantes?
Acho que ainda não estamos nesse lugar de dar aula para atores ou para universitários. Mas também porque vemos uma abertura nesse início, em pessoas que estão com ideias de teatro sem saber necessariamente o que é. Também para perceber como essas pessoas que não tiveram tanto contato com teatro antes, recebem nossas propostas, nossas ideias e linguagem.

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